Os principais sintomas da endometriose são a dor pélvica – cólicas menstruais intensas (dismenorreia), dor fora da menstruação e dor nas relações sexuais (dispareunia) – a que se juntam sintomas intestinais e urinários cíclicos, infertilidade e fadiga. A intensidade da dor não reflete a gravidade das lesões, por isso qualquer dor incapacitante merece avaliação médica.

Sintomas mais comuns, em resumo:
- Cólicas menstruais intensas (dismenorreia)
- Dor pélvica fora da menstruação
- Dor durante as relações sexuais (dispareunia)
- Sintomas intestinais ou urinários que pioram no período
- Dificuldade em engravidar
- Fadiga persistente
A endometriose é uma doença crónica e inflamatória, dependente das hormonas femininas, que afeta entre 5% a 10% das mulheres em idade reprodutiva — o equivalente a mais de 190 milhões de mulheres em todo o mundo. Caracteriza-se pela presença de tecido semelhante ao endométrio (a camada que reveste o interior do útero) fora da cavidade uterina, habitualmente associada a um processo inflamatório. Apesar de ser tão frequente, continua a ser uma doença subdiagnosticada: em média, decorrem entre 4 a 12 anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo, e a maioria das mulheres consulta pelo menos três médicos diferentes antes de obter uma resposta clara para o que sentem.
Este atraso deve-se, em grande parte, ao facto de os sintomas da endometriose serem muitas vezes confundidos com “cólicas normais” ou com outras doenças ginecológicas e não ginecológicas. Conhecer bem estes sintomas é, por isso, um passo fundamental para um diagnóstico mais precoce e um tratamento mais eficaz.
A dor pélvica: o sintoma mais comum
A grande maioria das mulheres com endometriose — cerca de 90% — apresenta algum tipo de dor pélvica. Esta dor pode assumir diferentes formas:
- Dismenorreia, ou seja, cólicas menstruais intensas, que tendem a agravar-se com o tempo e que muitas vezes não aliviam totalmente com analgésicos comuns;
- Dor pélvica não menstrual, presente fora do período da menstruação;
- Dispareunia profunda, isto é, dor durante as relações sexuais, sobretudo com a penetração profunda.
É importante sublinhar que a intensidade da dor não está necessariamente relacionada com a extensão ou gravidade das lesões: algumas mulheres com lesões mínimas sentem dores incapacitantes, enquanto outras com doença mais extensa têm poucos ou nenhuns sintomas. Isto acontece porque a dor associada à endometriose resulta de vários mecanismos combinados — inflamação local junto às lesões, irritação ou compressão de terminações nervosas, e ainda uma sensibilização do próprio sistema nervoso central, que amplifica a perceção da dor ao longo do tempo.
Sintomas intestinais e urinários
Quando as lesões de endometriose atingem órgãos vizinhos do útero, como o intestino ou a bexiga, podem surgir sintomas frequentemente confundidos com outras patologias digestivas ou urológicas:
- Disquezia (dor ao evacuar) e alterações do trânsito intestinal, por vezes com hematoquézia (sangue nas fezes), sobretudo durante a menstruação;
- Disúria (dor ou ardor ao urinar) e, mais raramente, hematúria cíclica (sangue na urina coincidindo com o período menstrual);
- Sintomas que se assemelham aos da síndrome do intestino irritável ou da cistite intersticial, o que contribui para atrasos no diagnóstico correto.
Infertilidade
A infertilidade está presente em cerca de um quarto a metade das mulheres com endometriose, e é, por vezes, o primeiro (ou único) motivo que leva a doença a ser investigada. Os mecanismos são múltiplos: inflamação crónica que afeta a qualidade dos óvulos e do ambiente pélvico, aderências que distorcem a anatomia da pélvis e podem bloquear as trompas, e alterações na recetividade do endométrio à implantação do embrião.
Saiba mais: Endometriose e fertilidade
Sintomas fora da pélvis (endometriose extrapélvica)
Embora menos conhecida, a endometriose pode também surgir fora da pélvis — a chamada endometriose extrapélvica — e originar sintomas muito específicos, quase sempre com um padrão cíclico, coincidindo com a menstruação:
- Dor no ombro (mais frequentemente do lado direito) durante a menstruação;
- Tosse, dor torácica ou mesmo pneumotórax catamenial (colapso do pulmão associado ao ciclo menstrual), quando existem lesões no diafragma ou na cavidade torácica;
- Dor e aumento de volume numa cicatriz cirúrgica (por exemplo, de uma cesariana) que se agrava com a menstruação;
- Lesões no umbigo que podem sangrar durante o período menstrual.
Estas manifestações, embora mais raras, devem ser valorizadas, sobretudo quando surgem associadas a outros sintomas típicos da doença.
Fadiga e sintomas gerais
Cada vez mais se reconhece que a endometriose não é apenas uma doença “da pélvis”, mas sim uma doença sistémica, com repercussões em todo o organismo. A fadiga intensa afeta uma proporção significativa das mulheres com endometriose, mesmo na ausência de anemia, e é frequentemente subvalorizada nas consultas. Também são mais comuns as perturbações do sono e os sintomas de ansiedade e de humor deprimido, provavelmente relacionados com o estado inflamatório crónico e com o impacto da dor persistente na qualidade de vida.
Porque é tão difícil chegar ao diagnóstico
Um dos maiores desafios da endometriose é precisamente a inespecificidade dos seus sintomas, que se sobrepõem aos de outras doenças frequentes, como a adenomiose, os fibromiomas uterinos, a síndrome do intestino irritável, a síndrome da dor vesical ou mesmo a dor miofascial do pavimento pélvico. Durante muito tempo, considerou-se que só a cirurgia (laparoscopia com confirmação histológica) permitia diagnosticar com certeza a doença. Atualmente, as principais sociedades científicas internacionais recomendam que o diagnóstico possa ser clínico, baseado na história de sintomas, no exame físico e em exames de imagem como a ecografia transvaginal ou a ressonância magnética — sem que seja necessário esperar por uma cirurgia para iniciar o tratamento. Importa recordar que um exame ginecológico ou uma ecografia normais não excluem a presença de endometriose, sobretudo quando as lesões são superficiais.
Como saber se tenho endometriose?
Nenhuma mulher deve conviver “naturalmente” com dores menstruais incapacitantes, dor durante as relações sexuais ou dores pélvicas persistentes. Sinais de alerta que justificam uma consulta de ginecologia incluem:
- Cólicas menstruais que interferem com as atividades diárias, escolares ou profissionais;
- Dor persistente antes, durante ou depois da menstruação;
- Dor durante as relações sexuais;
- Dificuldade em engravidar;
- Sintomas intestinais ou urinários que se agravam com o ciclo menstrual.
Se se revê nestes sinais, marque uma consulta de endometriose — o diagnóstico precoce faz toda a diferença.
Em resumo
A endometriose manifesta-se de forma muito variável de mulher para mulher, podendo incluir dor pélvica, sintomas digestivos e urinários, infertilidade, fadiga e, mais raramente, sintomas fora da pélvis. Reconhecer esta diversidade de sintomas é essencial para reduzir o tempo até ao diagnóstico — que continua, infelizmente, a demorar vários anos — e para permitir um acompanhamento médico atempado, capaz de melhorar significativamente a qualidade de vida das doentes.
Perguntas frequentes
Quais são os primeiros sintomas da endometriose?
Os mais precoces e comuns são cólicas menstruais intensas que se agravam com o tempo e não aliviam com analgésicos comuns, dor pélvica fora da menstruação e dor durante as relações sexuais.
A endometriose dá sempre sintomas?
Nem sempre. Algumas mulheres têm poucos ou nenhuns sintomas, e a doença é descoberta na investigação de infertilidade. A intensidade dos sintomas não corresponde à extensão das lesões.
A endometriose pode causar sintomas intestinais ou urinários?
Sim. Quando as lesões atingem o intestino ou a bexiga, podem surgir dor ao evacuar, alterações do trânsito, dor ou ardor ao urinar, muitas vezes agravados durante a menstruação.
Como saber se tenho endometriose?
Com cólicas incapacitantes, dor pélvica persistente, dor nas relações ou dificuldade em engravidar, deve consultar um ginecologista. O diagnóstico assenta na história clínica, no exame físico e em exames de imagem (ecografia ou ressonância magnética).
Referências
- Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al.; ESHRE Endometriosis Guideline Group. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009. DOI: 10.1093/hropen/hoac009
- As-Sanie S, Mackenzie SC, Morrison L, et al. Endometriosis: A Review. JAMA. 2025;334(1):64-78.
- Koninckx PR, Ussia A, Gordts S, et al. The 10 “Cardinal Sins” in the Clinical Diagnosis and Treatment of Endometriosis. J Clin Med. 2023;12(13):4547.
- Taylor HS, Kotlyar AM, Flores VA. Endometriosis is a chronic systemic disease: clinical challenges and novel innovations. Lancet. 2021;397(10276):839-852.


