A endometriose é uma doença inflamatória crónica que afeta milhões de mulheres em idade reprodutiva, causando dor pélvica, infertilidade e alterações menstruais. Apesar da sua elevada prevalência, continua a ser subdiagnosticada e mal compreendida. Um novo estudo liderado pelo Prof. Dr. José Reis, especialista em endometriose e cirurgia minimamente invasiva, ajuda a lançar luz sobre o papel do sistema imunitário nesta doença.
Endometriose: o que é e como afeta o organismo
A endometriose ocorre quando tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, podendo atingir ovários, trompas, intestino ou bexiga. Este tecido responde às hormonas do ciclo menstrual e pode originar:
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dores menstruais intensas,
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dor durante as relações sexuais (dispareunia),
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dor pélvica crónica,
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sintomas urinários ou intestinais,
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dificuldade em engravidar.
A doença tende a progredir com o tempo e pode comprometer a qualidade de vida da mulher.
O sistema imunitário na endometriose
Num organismo saudável, o sistema imunitário elimina células que se encontram fora do seu local habitual. Contudo, nas mulheres com endometriose, esse mecanismo parece falhar, permitindo que as lesões cresçam. O novo estudo centrou-se numa molécula chamada PD-1 (programmed cell death protein 1), que atua como um “travão” da resposta imunológica.
Estudo sobre o PD-1: metodologia e resultados
A investigação avaliou 62 mulheres submetidas a laparoscopia:
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47 com endometriose confirmada,
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15 sem sinais de doença (grupo controlo).
Foram recolhidas amostras de sangue e de líquido peritoneal para analisar a atividade do PD-1 em dois tipos principais de células do sistema imunitário:
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células NK (natural killer),
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linfócitos T.
Conclusões principais:
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Ativação do PD-1 nas células NK
No líquido peritoneal, observou-se uma maior expressão de PD-1 em mulheres com endometriose. Estas células, que normalmente destruiriam tecidos anómalos, ficam assim “bloqueadas” — permitindo o crescimento das lesões. -
Influência de fatores de estilo de vida
Fumadoras e mulheres com maior índice de massa corporal (IMC) apresentaram níveis mais elevados de PD-1, sugerindo que o estilo de vida afeta a resposta imunitária. -
Correlação com sintomas clínicos
Níveis aumentados de PD-1 foram associados a:-
dor sexual,
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sintomas urinários,
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sintomas gastrointestinais.
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O que significam estes resultados?
O estudo revela que a endometriose pode manipular o sistema imunitário para evitar ser combatida. A expressão aumentada de PD-1 impede que células NK e T eliminem o tecido endometriósico, o que explica a persistência das lesões e dos sintomas.
Embora a endometriose não seja um cancro, partilha mecanismos semelhantes de evasão imunitária. Isto levanta a possibilidade de, no futuro, usar terapias direcionadas, como os inibidores de checkpoint, atualmente usados em oncologia para restaurar a resposta imunológica nestes casos.
Perspetivas futuras no tratamento da endometriose
Ainda que estes resultados não impliquem mudanças imediatas no tratamento, abrem caminho para uma medicina mais personalizada, onde o perfil imunológico de cada mulher poderá guiar a escolha terapêutica. Investigar o papel do PD-1 poderá permitir identificar novas opções de tratamento e melhorar a qualidade de vida das mulheres com endometriose.
O futuro passa por uma cirurgia mais inteligente, personalizada e menos agressiva. A verdadeira evolução está em escolher a melhor opção para cada mulher.
