Consenso sobre Endometriose 2026
Reconhecer mais cedo, tratar melhor e colocar cada mulher no centro das decisões.
O Consenso sobre Endometriose 2026 da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, na cuja coordenação participou o Prof. Dr. José Reis, recomenda reconhecer a doença mais cedo, tratar de forma personalizada e colocar cada mulher no centro das decisões.

O Prof. Dr. José Reis participou como colaborador e foi um dos coordenadores na elaboração do novo Consenso sobre Endometriose 2026 da Sociedade Portuguesa de Ginecologia.
Este documento resulta de um trabalho multidisciplinar, apoiado na evidência científica mais atual e adaptado à realidade portuguesa. O seu principal objetivo é contribuir para uma abordagem mais precoce, organizada e personalizada da endometriose, promovendo uma linguagem comum entre os diferentes profissionais de saúde envolvidos.
Embora seja um documento dirigido sobretudo a profissionais, as suas principais mensagens interessam também às mulheres, às famílias e à sociedade. Conhecer melhor a doença é essencial para reduzir o atraso no diagnóstico e melhorar a qualidade de vida de quem vive com endometriose.
A dor menstrual incapacitante não deve ser normalizada
Uma das mensagens fundamentais é que o diagnóstico de endometriose deve ser considerado quando existem sintomas como dor menstrual intensa, dor durante as relações sexuais, dor pélvica persistente, dor ao urinar ou evacuar, perdas de sangue pela urina ou pelo intestino e dificuldade em engravidar.
Estes sintomas podem acompanhar o ciclo menstrual, mas também podem ocorrer fora da menstruação. A doença pode ainda afetar órgãos fora da região pélvica. Por isso, sintomas que aparecem ou pioram ciclicamente, mesmo em locais menos habituais, devem levantar a suspeita de endometriose.
Nas adolescentes, dores menstruais muito intensas, faltas frequentes à escola, sintomas digestivos ou urinários e ausência de resposta adequada aos analgésicos não devem ser desvalorizados. Muitas mulheres diagnosticadas na idade adulta referem que os primeiros sintomas surgiram durante a adolescência. Reconhecê-los mais cedo poderá evitar vários anos de sofrimento até ao diagnóstico.
O registo dos sintomas num diário ou numa aplicação pode ser útil. Anotar a intensidade e localização da dor, a sua relação com o ciclo menstrual e o impacto na escola, trabalho, sono, atividade física e vida sexual ajuda a mulher a explicar melhor o que sente e fornece informação importante aos profissionais de saúde.
Saiba mais: Os sintomas da endometriose: como reconhecê-los
Um exame normal não exclui endometriose
Outra recomendação importante é que um exame ginecológico normal não permite excluir a doença numa mulher com sintomas sugestivos. O mesmo se aplica a alguns exames de imagem: um resultado normal não significa necessariamente que a dor não tenha uma causa real ou que a investigação deva terminar.
A ecografia ginecológica realizada por um profissional experiente é o exame de imagem de primeira linha quando existe suspeita de endometriose. A ressonância magnética também apresenta um papel importante, sobretudo na avaliação da endometriose profunda, na caracterização de lesões mais complexas e na preparação de uma eventual cirurgia.
A laparoscopia continua a ser uma técnica de referência, pois permite observar diretamente as lesões, recolher tecido para análise e, em determinadas situações, realizar o tratamento. Contudo, não é necessária como primeiro passo em todas as mulheres. Pode ser considerada quando a suspeita clínica se mantém apesar de exames de imagem negativos, quando o tratamento inicialmente proposto não resulta ou quando existe indicação cirúrgica.
O consenso também alerta que o marcador CA-125 não deve ser utilizado por rotina para diagnosticar endometriose. Atualmente, não existe em Portugal um biomarcador recomendado que, isoladamente, permita confirmar ou excluir a doença.
O tratamento deve ser escolhido com cada mulher
Não existe um tratamento único que seja adequado para todas as situações. A escolha deve considerar os sintomas, a idade, o desejo atual ou futuro de engravidar, os efeitos secundários, os custos e, sobretudo, as preferências da mulher.
O tratamento médico hormonal reduz a dor associada à endometriose. Os contracetivos hormonais combinados e os progestativos estão entre as principais opções de primeira linha. Podem ajudar a diminuir a dor menstrual, a dor durante as relações sexuais e a dor pélvica que ocorre fora da menstruação. O dispositivo intrauterino com levonorgestrel também pode ser uma opção de longo prazo.
Existem tratamentos hormonais adicionais para mulheres que não obtêm alívio suficiente com as primeiras opções. Alguns atuam reduzindo temporariamente a produção de estrogénios e são habitualmente reservados para uma segunda linha de tratamento, devido aos seus potenciais efeitos adversos. A escolha e a duração destas terapêuticas devem ser cuidadosamente acompanhadas pelo médico.
Nas adolescentes com suspeita ou diagnóstico de endometriose, os contracetivos hormonais combinados ou os progestativos podem ser utilizados para reduzir a dor. O objetivo não é apenas controlar os sintomas no presente, mas proteger a qualidade de vida e o bem-estar futuro.
Saiba mais: A endometriose tem cura? Resposta e tratamentos
Tratar a dor exige mais do que prescrever medicamentos
A dor crónica associada à endometriose é complexa. Pode resultar da inflamação e das próprias lesões, mas também do envolvimento dos nervos e de alterações na forma como o sistema nervoso processa a dor. A intensidade da dor nem sempre corresponde à extensão visível da doença.
Por esse motivo, o consenso recomenda uma abordagem multimodal e personalizada. A medicação pode ser importante, mas deve ser articulada, quando necessário, com fisioterapia e reabilitação do pavimento pélvico, apoio psicológico, aconselhamento nutricional, exercício adaptado, melhoria do sono e estratégias de gestão do stresse.
O objetivo do tratamento não deve ser apenas reduzir uma escala numérica de dor. Deve também recuperar funcionalidade, melhorar o sono, diminuir o isolamento social, favorecer as relações pessoais e permitir uma participação mais plena na vida familiar e profissional.
A cirurgia deve ser individualizada e realizada em centros experientes
A cirurgia minimamente invasiva é a via preferencial quando existe indicação para tratamento cirúrgico. A remoção das lesões pode reduzir a dor e melhorar significativamente a qualidade de vida, particularmente nos casos de endometriose profunda.
No entanto, cirurgia não significa automaticamente cura e nem todas as mulheres necessitam de ser operadas. Os benefícios devem ser avaliados em conjunto com os riscos, a possibilidade de recorrência, o desejo de engravidar e o impacto sobre os órgãos envolvidos. Na endometriose dos ovários, a possibilidade de preservação da fertilidade deve ser discutida antes da intervenção.
Os casos de endometriose profunda, intestinal ou urinária devem ser tratados por equipas multidisciplinares em centros especializados, com experiência neste tipo de cirurgia. A complexidade destes procedimentos exige colaboração entre ginecologistas, cirurgiões, urologistas, radiologistas, anestesiologistas e outros profissionais.
Mesmo a histerectomia (remoção do útero) não garante, por si só, a eliminação de todos os sintomas ou da doença. Trata-se de uma opção para situações selecionadas e para mulheres que não desejam preservar a fertilidade, depois de informação detalhada e decisão partilhada.
Endometriose e fertilidade
A abordagem da infertilidade associada à endometriose deve considerar a idade, os sintomas, a reserva ovárica, a extensão da doença, cirurgias anteriores, outros fatores de infertilidade e as preferências da mulher.
A terapêutica hormonal que suspende a função dos ovários não aumenta, por si só, a possibilidade de uma gravidez espontânea. Do mesmo modo, a cirurgia não deve ser proposta de forma automática apenas por existir infertilidade. Em algumas situações poderá ser útil; noutras, poderá ser mais adequado avançar para técnicas de procriação medicamente assistida.
Mais uma vez, a decisão deve ser individualizada e tomada após informação clara sobre benefícios, limitações e riscos.
Informação rigorosa sem criar alarmismo
Existe um aumento relativo do risco de alguns tipos de cancro do ovário em mulheres com endometriose. Contudo, o consenso sublinha uma informação essencial: o risco absoluto permanece baixo. Esta associação não deve gerar alarmismo nem justificar a remoção preventiva de ovários saudáveis.
A mensagem central deste novo consenso é simples: ouvir as mulheres, reconhecer os sintomas, investigar de forma adequada e escolher o tratamento através de uma decisão verdadeiramente partilhada.
A endometriose pode afetar profundamente a saúde, a fertilidade, as relações pessoais, o percurso académico e a vida profissional. Melhorar a resposta a esta doença exige conhecimento científico, formação dos profissionais, organização dos cuidados e uma sociedade que deixe de normalizar a dor incapacitante.
Se tem sintomas sugestivos de endometriose, marque uma consulta de endometriose com uma equipa especializada.
Perguntas frequentes
O que é o Consenso sobre Endometriose 2026?
É o documento da Sociedade Portuguesa de Ginecologia que reúne as recomendações mais atuais para o diagnóstico e o tratamento da endometriose em Portugal, com uma abordagem multidisciplinar e centrada na mulher.
Quem participou na sua elaboração?
Foi elaborado por um grupo multidisciplinar da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. O Prof. Dr. José Reis participou como colaborador e foi um dos coordenadores.
O que muda para as mulheres?
Reforça o diagnóstico mais precoce, o fim da normalização da dor menstrual incapacitante e a decisão partilhada sobre o tratamento, adaptado a cada mulher.
Um exame normal exclui endometriose?
Não. Um exame ginecológico ou de imagem normal não exclui a doença quando existem sintomas sugestivos. A investigação deve continuar.
Sociedade Portuguesa de Ginecologia – Consenso sobre Endometriose 2026
Por Prof. Dr. José Reis – Ginecologista-Obstetra especialista em endometriose e cirurgia minimamente invasiva, professor e investigador com publicações internacionais na área e um dos coordenadores do Consenso sobre Endometriose 2026 da Sociedade Portuguesa de Ginecologia.